Cruzeiro do Sul, Acre 27 de maio de 2026 11:51

Soldados na Ucrânia recorrem a drogas para suportar a guerra

Nos dois lados do front da guerra na Ucrânia, soldados recorrem ao uso de drogas para suportar os desafios do conflito, que já entrou no quinto ano. À medida que os combates se prolongam, o vício e a automedicação se tornam um problema crescente, embora amplamente negligenciado.

As substâncias químicas servem para tratar as dores dos ferimentos, evitar o sono, suprimir o medo ou simplesmente continuar funcionando.

“Guerra significa braços e pernas arrancados. São intestinos, mau cheiro e sujeira no corpo. Você se urina, você se suja. É um estado emocional extremamente difícil”, relata Dmytro, oficial ucraniano e dependente em recuperação. “Uma pessoa que nunca usou nada na vida acaba usando ali.”

Do lado ucraniano, muitos soldados servem desde o início da invasão em larga escala, em 2022. Com recrutamento insuficiente e sem plano de desmobilização, eles permanecem por longos períodos na linha de frente, frequentemente sem descanso.

Stanislav, que atuou na contraofensiva ucraniana em Zaporíjia de 2023 a 2024, não aguentou. Ele desertou a sua unidade há dois anos e, desde então, vive escondido, enquanto tenta se recuperar do abuso de substâncias. “Quando você está sob efeito da metadona, consegue esquecer um pouco. Não é que você ganhe ‘força’. É mais que você consegue se distanciar daqueles horrores e daquela ansiedade constante.”, disse.

Estimulantes e opioides

As drogas sempre fizeram parte da guerra. A Alemanha nazista distribuiu milhões de comprimidos de metanfetamina às tropas durante a Segunda Guerra Mundial.

Já as Forças Armadas dos Estados Unidos forneceram estimulantes aos recrutas por décadas, da Segunda Guerra, passando pelo Afeganistão e até o Iraque. Durante a guerra no Vietnã, até 15% dos soldados americanos usaram heroína – não para melhorar o desempenho, mas para lidar com os efeitos da guerra.

Por sua vez, os soldados ucranianos – em grande parte, relativamente jovens – vêm recorrendo tanto a estimulantes quanto a opioides variados. Para especialistas, a dependência química poderá, inclusive, acompanhá-los após um eventual fim dos confrontos.

“Na história recente, nenhum Exército lutou por quatro anos sem rodízio. Essas pessoas voltam com a bioquímica alterada. E não se interessam mais por nada: nem família, nem casa, nem trabalho, nem carreira”, afirma Ihor Alferow, psicoterapeuta com mais de 20 anos de experiência no tratamento da dependência química.

Na guerra, ele também atua como capelão militar, apoiando tropas e trabalhando com soldados que enfrentam abuso de substâncias. “Eles se acostumaram ao perigo. A droga ‘amortece’ essa parte. E então isso vira um problema”.

Traumas múltiplos

Tradicionalmente, a exposição a múltiplos traumas leva soldados à síndrome de dor intensa, que não são resolvidas por medicamentos comuns. A solução, então, se torna a busca por meios alternativos para controlar a dor e voltar ao combate.

Para Dmytro, tudo começou depois do primeiro ferimento em combate, quando ele foi atingido no braço. “Recebi injeções de analgésicos. E os analgésicos me faziam sentir muito bem. Quando tive alta do hospital, me senti mal. Voltei ao serviço, e me senti mal. Você precisa encontrar alguma coisa, precisa dar um jeito. Comecei a tomar Prinagolin. Um analgésico.”

Mais tarde, ele recorreria à metadona, que circulava clandestinamente entre as tropas por ele comandadas. “Eu sabia que a metadona também é um analgésico, só que com outro efeito. Comecei a tomar dois, três comprimidos e, aos poucos, cheguei a um ponto em que já não conseguia mais me controlar.”

O estresse do combate, associado à falta de apoio em saúde mental, está também por trás do aumento do uso de substâncias documentado pela Health Solutions, uma organização que pesquisa o uso de drogas tanto na vida civil quanto no meio militar.

“Mesmo nos casos em que são gravemente feridos, hospitalizados e tratados, os militares continuam com dores mal controladas, além de sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático e outras condições psicológicas que exigiriam uma combinação de tratamento médico, farmacológico e psicoterapia,” diz a diretora-executiva da organização Victoriia Tymoshevska.

Falta apoio para veteranos

A especialista estima que metade dos militares na linha de frente já teve algum tipo de experiência de uso de drogas, o que frequentemente inclui a combinação de álcool com outras substâncias.

“Começou com álcool. Depois todo mundo cheirava anfetamina,” relata Stanislav, sobre os primeiros dias de treinamento, antes do vício em opioides. “A metadona me deu reservas, mas, como dizem, tudo tem um preço. Sem ela, eu já não conseguia lidar com nada, nem sair da cama.”

Para muitos combatentes, as drogas representam ainda um risco imediato, uma vez que podem comprometer a sua atuação na linha de frente. “A prática informal é que, desde que não afete sua capacidade de cumprir o dever e participar das missões, isso é tolerado, ou seja, fazem vista grossa. Desde que você opere, compareça ao serviço e cumpra as tarefas designadas,” afirma Tymoshevska.

Para outros, ainda, o problema começa com a desmobilização, quando faltam serviços de saúde na vida civil. “Não há lugares onde veteranos possam se encontrar, passar tempo, ir a museus, à natureza. Não temos psicólogos trabalhando para oferecer serviços de reabilitação,” aponta Dmytro.

Só recentemente o apoio governamental a soldados com dependência química foi incluído na estratégia para veteranos ucranianos, como projeto-piloto. Em teoria, enquanto isso, o uso de drogas continua estritamente proibido nas Forças Armadas.

Soldados flagrados podem enfrentar punições severas e, se drogas forem encontradas em autópsias, as famílias de militares mortos em combate podem perder compensações estatais.