Cruzeiro do Sul, Acre 22 de maio de 2026 09:51

Para voltar a fortalecer extrativismo nas unidades de conservação, projeto reabre 128 estradas de seringa no AC

O debate sobre o avanço do desmatamento dentro das unidades de conservação ambiental no Acre tem sido recorrente entre entidades e órgãos responsáveis por essas áreas. Inclusive, ano passado, uma das maiores áreas de proteção do estado, a unidade de conservação Resex Chico Mendes liderou o ranking de ameaça de desmatamento de um estudo feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Luíza Carlota, vice-presidente da associação, deu declarações em anos anteriores afirmando que muitas famílias da Resex já não viviam mais do extrativismo e teriam migrado para a agropecuária, o que teria contribuído para esse desmatamento.

Ela foi categórica ao dizer que a ausência do Estado é o que acaba interferindo na preservação ambiental das unidades e que o governo federal não aloca recursos para as famílias que vivem dentro da Resex.

“Não tem política de sustentabilidade, a não ser um projeto alemão que compra borracha produzida aqui dentro. Além de tudo, o plano da Resex está defasado, já existe uma quantidade bem maior de famílias que não têm condições de trabalhar aqui dentro. Não tem mais uma produção extrativista forte e estamos sendo punidos por desmatar locais para plantar mandioca, por exemplo”, chegou a criticar na época.

Foto: SOS Amazônia

‘Nossabio’

É justamente nesse ponto que o projeto “Nossabio – Territórios Conservados” age. Junto com associações de moradores das unidades de conservação e com o apoio financeiro do Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, o objetivo é fazer com que as famílias voltem a apostar no extrativismo aliado à preservação ambiental.

As ações já chegaram diretamente cerca de 315 famílias e 1.455 pessoas. Uma das ações mais importantes é a distribuição de kits para a retirada de látex e a reabertura de 128 estradas de seringa, que voltaram a ser rota de produção.

Alguns números do projeto:

  • 219 pessoas capacitadas em boas práticas de manejo e produção extrativista, sendo que destas, 84 só com produção de borracha; 57 em práticas de manejo de açaí e mais 78 de manejo em cacau silvestre;
  • 18 pessoas da Resex Chico Mendes participaram de um curso sobre recepção de turistas e de um guia de turismo;
  • 128 estradas de seringa.

 

De acordo com a ONG, o resultado desse trabalho foi o incremento da produção extrativista, que gerou cerca de R$ 1,5 milhão. Somente no âmbito da cadeia de valor da borracha, com a reabertura de 128 antigas estradas de seringa, foram produzidas 70 toneladas de borracha Cernambi Virgem Prensado (CVP) – a chamada borracha natural.

Adair Duarte, coordenador de projetos da SOS Amazônia , formado em gestão ambiental com especialização em agroecologia, explica que atualmente toda a borracha extraída no Acre tem destino certo. A Vert, uma marca francesa de tênis sustentável que utiliza desde 2007 a borracha nativa de seringueiros do Acre na fabricação, compra todo esse material.

“Este ano eles estão pagando a R$ 10 o quilo para o extrativista, no ato que o extrativista entrega a borracha na cooperativa. Porque, além do preço comercial, que é R$ 2,50 da borracha, eles também estão recebendo pelos serviços sociais e ambientais, ou seja, eles fazem um pagamento ao extrativista para que cuidem da floresta, para a família permanecer na floresta e isso está sendo muito atrativo. A borracha está voltando com muita força para o estado, a gente está falando de uma produção de borracha, no último ano no Acre, de mais de 500 toneladas”, explica.

Do Acre para a França

Foto: SOS Amazônia

‘O kit de extração de látex, segundo o coordenador, chega ao valor de R$ 600 e é dado gratuitamente para que o produtor possa ter esse incentivo. O projeto, além de manter a floresta em pé, fomenta a economia da comunidade e resgata a principal atividade dentro das unidades de conservação.

“O trabalho foi incentivar essas famílias a retornar o extrativismo como uma forma de proteger seu território, porque, quando o extrativista tem na floresta a garantia do sustento da família, ele vai cuidar daquilo, ele não vai desmatar, vai cuidar, porque aquilo está trazendo renda para a família. Então, é uma estratégia de preservar essa unidade de conservação que está gerando renda”, avalia.

Para ele, sem esse incentivo a probabilidade de desmatar é maior. “Se não tem uma geração de renda, se não der nenhum retorno para ele, a tendência é muito maior dele desmatar aquilo. Teve família que nesta última safra fez a extração de uma tonelada, mil quilos de borracha, e teve uma renda de R$ 10 mil com a borracha, que é uma atividade que ele desenvolve durante cinco ou seis meses por ano, porque a borracha você não corta todo dia, o ano todo”, pontua.