“Não deu tempo para outra coisa, só pelejar para abrir a porta que estava emperrada, e gritar pelo meu filho, meu neto que estava, meu esposo”
Esse relato é da dona de casa Francisca Queiroz, moradora da rua 1º de Maio, no bairro Seis de Agosto, e que perdeu sua residência em um novo deslizamento de terra ocorrido na capital acreana. O desmoronamento ocorreu entre a noite dessa quinta-feira (14) e a madrugada desta sexta (15) e também atingiu parte do terreno de um restaurante em outro ponto do bairro, às margens do Rio Acre.
👉 Contexto: O Rio Acre ficou mais de uma semana acima dos 17 metros e alcançou o maior nível do ano, de 17,89 metros, no dia 6, há uma semana. Essa foi a segunda maior cheia da história, desde que a medição começou a ser feita, em 1971. A maior cota histórica já registrada é de 18,40 metros, em 2015.

Casa ficou destruída após desbarrancamento no bairro Seis de Agosto, em Rio Branco — Foto: Richard Lauriano/Rede Amazônica Acre
Além de destruir a casa de Francisca, o desmoronamento também levou um deck de madeira que havia no quintal da casa. Francisca, que morava no local há 14 anos, conta que escutou estalos em uma casa próxima e foi até a janela para ver o que estava acontecendo. Foi quando percebeu o desmoronamento, e precisou correr com o marido para se salvar.
“Todo o trabalho da vida toda, tudo que nós tínhamos, tudo, tudo. Foi tudo. Tudo que a gente tinha, perdemos tudo. A única coisa que salvou foi a moto porque estava aqui, embaixo de casa. Só o que sobrou foi a moto, um abismo. Não sei, esperar em Deus, só espero em Deus o socorro, porque com as autoridades ninguém conta não”, desabafa.

Desbarrancamento levou deck de madeira que havia no terreno — Foto: Arquivo pessoal
O enteado de Francisca, Marcio Melo, relata que comunicou recentemente à Defesa Civil sobre o risco de desmoronamento no local, e pediu que o órgão fizesse uma vistoria, o que segundo ele, não ocorreu.
“Eu liguei na Defesa Civil, registrei a ocorrência, insisti, falei, insisti de novo. E isso já faz mais de 48 horas. Infelizmente, eles não vieram aqui. Está aí o resultado do risco geológico que tinha aqui nessa região. Não só aqui, como nas todas as imediações das casas vizinhas, na direita e na esquerda. Infelizmente, eu queria até fazer um apelo para o coordenador da Defesa Civil, para o coronel Falcão, para o prefeito, Tião Bocalom, e para todas as autoridades competentes, para que não aconteça mais isso aqui com outras pessoas”, conta.

Francisca Queiroz disse que percebeu barulho em casa vizinha e viu deslizamento de terra pela janela — Foto: Richard Lauriano/Rede Amazônica Acre
Em outro trecho atingido pelo desmoronamento, onde funciona o restaurante Quintal do Osvaldo, o desbarrancamento começou por volta das 0h de sexta. O proprietário, Osvaldo Gomes, mora no local há mais de 50 anos, e conta que instalou câmeras quando percebeu sinais de desmoronamento.
Por estar localizada próxima ao rio, a região foi uma das mais atingidas pelas águas. Mesmo com o deslizamento de terra, ele afirma que não tem para onde ir e vai permanecer no local. Ele lamenta a situação, mas diz que está acostumado.
“Aqui é onde eu tiro meu ganha-pão para sustentar a minha família. Então, não tenho para onde ir. Não tenho outra opção, porque as pessoas gostam daqui, porque é frio, é ventilado, na beira do rio. E o único problema que aconteceu foi esse desbarrancamento, mas foi da natureza. O rio desceu muito rápido, toda vez que desce rápido, pode esperar que desbarranca. Eu já estou acostumado, é uma situação difícil que a gente passa na vida. A gente não está preparado, mas a gente já espera, para que dali a gente mantenha o coração tranquilo”, acrescenta.
Segundo o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, a grande demanda por vistorias aliada ao efetivo atual do órgão pode causar demora no atendimento às solicitações. O coronel Cláudio Falcão ressalta que, mesmo com a demora, as vistorias vão seguir acontecendo e os moradores de áreas de risco serão retiradas desses locais em caso de necessidade.
“O que eu vou falar é uma questão de explicação e não uma justificativa. Nós temos, só de casas de pessoas abrigadas, 1.100 vistorias. Além disso, nós temos mais umas 1.000 vistorias também pedidas. Então a Defesa Civil já tem uma demanda acima de 2.000 vistorias e a gente precisa estar em todos os locais. Então, sim, pode ter uma certa demora no momento que é acionado. Nós vamos em todos os lugares. Como eu disse inicialmente, é uma explicação, não se justifica. Nós teríamos que ter muito mais efetivo para poder dar conta de toda essa demanda, mas o fato é que nós vamos aos locais e talvez não rapidamente, como a população precisa e merece, mas nós vamos atender a todos, levar a segurança, orientar, retirar famílias e também isolar áreas que estão oferecendo risco. Isso é um papel da Defesa Civil”, afirmou.
Colaborou o repórter Richard Lauriano, da Rede Amazônica Acre.
Problema pós-cheia

Casas desbarrancam após vazante do Rio Acre na capital; situação ocorreu nesta quinta-feira (14) — Foto: Ismael Melo/Rede Amazônica
Pelo menos duas casas e uma oficina desabaram em Rio Branco , nessa quinta-feira (14), devido à baixa do Rio Acre. Quatro veículos também foram arrastados pela água. Segundo a Defesa Civil Municipal, ninguém se feriu, mas há risco de que mais residências desabem e por isso estão sendo evacuadas. Desde o dia 7 de março, o nível do Rio Acre tem baixado rapidamente.
O desabamento aconteceu em um trecho da Rua Poços de Caldas, no bairro Cidade Nova, no Segundo Distrito de Rio Branco. A região, que fica às margens do Rio Acre, foi uma das mais atingidas pela enchente, e agora, com a descida acelerada do nível do rio, que saiu de 17,89 metros em 6 de março para 9,64 metros nesta quinta, registrou o deslizamento.
Segundo o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, tenente-coronel Cláudio Falcão, a área do desabamento já foi isolada.
“Toda essa área está comprometida e que nós estamos evacuando agora, tirando as pessoas e tomando as providências para que se mantenha a segurança, especialmente das pessoas. Posteriormente nós vamos adentrar nessas casas para tentar salvar os móveis, mas primeiramente as pessoas. Agora, felizmente, ninguém estava dentro da casa”, disse.
Ainda segundo o tenente-coronel Cláudio Falcão, o terreno não tem sustentação e a área já era monitorada por risco de desabamento. Com a cheia histórica, o risco aumentou.
“Aqui nós vamos, pelo menos, averiguar um raio de 100 metros laterais do momento aqui do desmoronamento, para que a gente possa ter a dimensão. Mas, pelo menos, aqui na nossa lateral esquerda e lateral direita, nós vamos, pelo menos, evacuar umas 10 casas cada lateral, que dá em torno de 100 metros, para poder manter a segurança das pessoas e fazer o monitoramento permanente aqui nesse instante, da mesma maneira que a gente já teve que tirar algumas”, complementou.
Equipes do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Assistência Social do município foram ao local para organizar a logística de retirada das famílias e demais procedimentos de segurança.
Júnior Antero, funcionário da oficina que desabou, disse que houve correria no momento em que aconteceu o deslizamento.
“Só deu tempo de nós [sic] tirar dois carros e algumas coisas só. [Estávamos] em quatro pessoas. Conseguimos sair por sorte, porque quase que nós [sic] ia junto com a água. Muito rápido, coisa de segundo. Não tinha marca de nada, nem um quebrado nem nada, a terra engoliu do nada. Desceu de uma vez. Foram três veículos [levados no pelo desbarrancamento] dois carros pequenos e um caminhão, [além de] compressor e o maquinário da oficina todinho”, complementou.