Qiu Zilong, neurocientista chinês de 49 anos, está sendo investigado pela Universidade Jiao Tong de Xangai, na China, na qual trabalha, após a morte de menina de 6 anos, que teria sido vítima de terapia experimental de edição genética.
Apesar de o caso ter acontecido há mais de um ano – em março do ano passado –, a universidade só resolveu iniciar a investigação depois de a morte da criança vir a público, na semana passada, com a divulgação de relatório da revista Science em conjunto com a Retraction Watch, ONG que monitora pesquisas.
Identificada apenas como Mei, a menina morreu dias depois de receber tratamento destinado a corrigir mutação genética que afetava seu neurodesenvolvimento.
“Sete dias após a equipe médica da menina ter infundido trilhões de vírus contendo a receita para o editor de bases em seu líquido cefalorraquidiano, ela morreu de uma grave reação imunológica relacionada à terapia”, informou o relatório.
Segundo o South China Morning Post, até o momento o Hospital Xinhua, afiliado à universidade, só havia pago multa de apenas 24 mil yuans (ou US$ 3,5 mil) às autoridades de saúde locais, em setembro passado. Valor muito aquém do arrecadado pela própria família da criança (US$ 860 mil) para a realização do ensaio clínico.
De acordo com documentos fornecidos pelos pais, o hospital permitiu que o julgamento de Qiu acontecesse segundo disposição regulamentar que não exige aprovação dos órgãos reguladores nacionais. “Tomar conhecimento da realidade dessas medidas de segurança ausentes mudou fundamentalmente a forma como agora vemos todo o projeto”, disse o pai da vítima à revista Science.
Agora, a instituição de ensino resolveu entrar no caso. “A faculdade de medicina sempre valorizou a integridade e os padrões da pesquisa e se opõe resolutamente à pesquisa médica que viole a ética e os regulamentos de pesquisa”, afirmou, em comunicado.
Ao South China, Qiu se recusou a comentar o caso e disse que “todas as respostas serão fornecidas pelos líderes [da faculdade de medicina]”.
- O que Mei tinha era a síndrome de Snijders Blok-Campeau, condição genética identificada em menos de 300 pessoas no mundo. Ela resulta de mutação que interrompe a função de uma proteína essencial do DNA, causando deficiências físicas e cognitivas, que se assemelha ao transtorno do espectro autista.