Não foi evento institucional.
Foi confraternização com verniz democrático.
O SBT abriu as portas para políticos. Normal. Democracia não se constrói com emissora em quarentena. Política se cobre, se expõe, se enfrenta.
O problema não é quem entra no estúdio.
É quem sobe ao palco como se fosse atração principal.
Alexandre de Moraes não é jornalista.
Não é político eleito.
E não exerce, há tempos, a virtude mínima que se espera de um juiz: discrição.
Ainda assim, foi tratado como celebridade. Não para responder perguntas. Não para ser confrontado. Mas para discursar. Para performar. Para ocupar espaço simbólico que a Constituição nunca lhe deu.
Aquilo não foi entrevista.
Foi aplauso organizado.
Quando um ministro do Supremo vira personagem midiático, o país não está informado — está anestesiado. Toga não foi feita para selfie, nem para palanque, nem para discurso autoelogioso. Foi feita para conter poder, não para expandi-lo.
Mas sigamos.
Causa no mínimo um ruído moral ver um presidente que se recusa a condenar atos terroristas contra judeus circulando com naturalidade em uma emissora fundada por um judeu. Não é crime. Não é ilegal. É incoerente. E incoerência, em símbolos nacionais, não passa despercebida.
O ambiente não parecia protocolo.
Parecia festa.
Não parecia imprensa recebendo autoridade.
Parecia amigos celebrando influência.
E aqui está o erro central: imprensa que sorri demais para o poder começa a falar baixo demais para o povo.
O SBT não é uma emissora qualquer.
É memória afetiva nacional.
É formação cultural silenciosa.
É o Brasil que aprendeu a rir, desconfiar e pensar diante da TV.
Milhões cresceram com o SBT ligado na sala. Domingo, almoço simples, família reunida. Silvio Santos ensinando, sem discurso, que poder exagerado merece humor — nunca reverência.
Por isso, quando o SBT escorrega, não é audiência que se perde. É referência.
Este texto não é pedido de desculpa.
É aviso.
Milhões não se sentiram atacados. Se sentiram deslocados. Como quem entra na própria casa e percebe que os móveis mudaram de lugar sem aviso.
Esses mesmos milhões estarão ao lado do SBT no dia em que a censura bater à porta. Porque o afeto permanece. Mesmo quando a confiança balança.
Mas afeto não é salvo-conduto.
E história não aceita neutralidade performática.
O SBT precisa decidir se quer ser tribuna do povo ou camarote do poder.
A festa acaba.
As imagens ficam.
E a conta sempre chega.
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