Cruzeiro do Sul, Acre 5 de março de 2026 23:31

Coluna do Ton

Por Eliton Muniz

Coluna do Ton- O mito da continuidade e o plano de voo do poder no Acre

Quando um governador fala em governo de continuidade, a pergunta correta não é se ele está confiante. A pergunta correta é: continuidade de quê?

Porque trocar o comando, mudar quem decide, e ainda assim chamar isso de continuidade não é análise. É um recurso retórico confortável. Funciona bem no discurso, mas não se sustenta quando observado pelo prisma da governança.

Aqui não se faz torcida. Faz-se leitura de consciência pública: decisão, padrão, comportamento e consequência real, com o Acre como território onde a conta sempre chega.

O fato

O governador Gladson Cameli tem afirmado publicamente que sua sucessão representa um governo de continuidade e aponta Mailza Assis como essa continuidade.

A mensagem é simples, confortável e politicamente eficiente: o projeto segue, nada muda.

Mas política de Estado não se mede por slogan. Mede-se por comando.

Por que a continuidade não se sustenta

Continuidade real exigiria a mesma visão, o mesmo método e a mesma lógica de decisão. Isso simplesmente não existe quando muda quem governa.

Trocar um homem por uma mulher, com trajetórias, histórias e formas de governar diferentes, não produz continuidade automática. Mesmo que quisesse, Mailza não governaria como Gladson.

Isso não é elogio nem crítica moral. É leitura institucional. Governante não é carimbo. Governante é comando.

A trajetória invisível de Mailza

Há um ponto pouco explorado no debate público e que altera profundamente essa leitura.

Mailza não surge apenas como vice indicada. Ela viveu a política antes do poder. Foi esposa de prefeito em município do interior, conviveu com orçamento mínimo, cobrança direta da população e os limites reais de uma prefeitura pequena. Isso não cria espetáculo. Cria sensibilidade administrativa.

Depois, ela faz um movimento raro na política acreana: sai do interior e vai para Brasília. Em um intervalo curto, transita entre realidades completamente distintas. Esse contraste produz acúmulo de informação política e institucional.

Quem atravessa extremos tão opostos não governa por reflexo. Governa por comparação. E isso, por si só, desmonta a ideia de continuidade automática.

O argumento dos secretários e o erro básico

O governo tenta sustentar a narrativa da continuidade afirmando que alguns secretários permanecerão nas pastas. Mas aqui existe um erro básico de compreensão do funcionamento do poder.

É possível manter a tripulação inteira. Ainda assim, se o plano de voo mudar, o destino muda. O avião pode ser o mesmo. A tripulação pode ser a mesma. Mas quem assume o comando é quem decide para onde esse avião vai.

Secretário executa. Governador decide. Tripulação segue plano. Quem tem o plano de voo na mão governa.

Manter secretários não prova continuidade. Prova apenas que a máquina administrativa segue funcionando. Funcionamento não é direção. Direção é escolha.

Alan Rick: presença em Brasília, ausência no território

Do outro lado do tabuleiro político está Alan Rick. Senador da República, comunicador habilidoso, discurso bem estruturado e forte presença orçamentária por meio de emendas.

Mas no Acre existe uma leitura que o eleitor já faz com naturalidade: emenda não é favor. É obrigação do mandato.

E alianças políticas no Estado não se constroem apenas com planilha. Constroem-se com presença, confiança e rede real no território. Alan Rick é forte no recurso financeiro, mas enfrenta fragilidade na presença cotidiana e orgânica no Estado.

Bocalom: força local e limite estrutural

Há ainda Tião Bocalom. Prefeito da capital, discurso popular, marca consolidada e base local sólida.

Mas governar município não é o mesmo que governar Estado. E governar Estado não é o mesmo que ter trânsito livre nos centros nacionais de decisão.

Rio Branco oferece vitrine. Brasília oferece governabilidade.

Os cenários possíveis

Aqui entra a leitura analítica, não o decreto.

Em um confronto direto entre Mailza e Alan Rick, a leitura indica vantagem inicial para Alan. Em um cenário com três nomes — Mailza, Alan Rick e Bocalom — a dinâmica muda e cresce a probabilidade de segundo turno.

E no Acre, segundo turno é sobrevivência política. Quem fica isolado perde força. E emenda não compra coalizão.

Fechamento

Quando se ouve a expressão governo de continuidade, é preciso entender o que está em jogo: a tentativa de transformar transição em permanência.

A realidade, porém, não respeita slogan. Troca de comando muda destino, mesmo com o mesmo avião e a mesma tripulação.

No Acre, eleição não se ganha com retórica nem com planilha. Ganha-se com presença, trajetória e capacidade real de governar.

Em 2026, o eleitor tende a fazer algo perigoso para quem vive de discurso: começar a cobrar entrega.

Eliton Muniz
Leitura de Consciência Pública
Cronista do Cidade AC News
Acre | Rio Branco

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