Cruzeiro do Sul, Acre 11 de março de 2026 02:45

Nova espécie de macaco descoberta no Brasil só pode ser encontrada no Acre e Amazonas

Uma nova descoberta reforçou ainda mais a biodiversidade da Amazônia. Publicado no começo de junho, um estudo revelou uma nova espécie de primata exclusiva do bioma, que, pela primeira vez, foi descrita cientificamente. A espécie é o uakari dos Kanamaris (Cacajao amuna).

Felipe Ennes Silva tem doutorado pela University of Salford, com mestrado em Zoologia pela PUCRS. Ele é colaborador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e foi um dos responsáveis pela pesquisa. A espécie, segundo ele, foi descoberta ainda em 1999, mas ainda não há um estudo aprofundado.

“No entanto, nestes mais de 20 anos, ninguém de fato estudou esta população para entender sua distribuição geográfica e, principalmente, se geneticamente esses uakaris do Tarauacá seriam distintos dos outros. Em 2018, outra população de uakari branco foi identificada no Rio Pauini. Com isso, fomos montando algo como um quebra-cabeça da distribuição geográfica dos uakaris. Com minha pesquisa de doutorado, incluí uma série de análises genéticas e concluímos que os uakaris brancos de Tarauacá são geneticamente distintos das outras espécies de uakaris, possuem um padrão de pelagem também distinto e só ocorrem naquela região entre o Rio Tarauacá e o Alto Rio Pauini”, explica.

A espécie só foi considerada nova após o grupo de pesquisadores reunir informações que incluíam genoma, coloração de pelagem e distribuição geográfica.

“Até o momento, sabemos que ocorre ao longo da margem direita do Rio Tarauacá até a região do Alto Rio Pauini, já no estado do Amazonas. Mas, ainda faltam informações sobre a ocorrência desta espécie no alto rio Tarauacá, no Acre. Ainda não temos dados sobre o tamanho desta população, mas estamos planejando uma expedição para o final de janeiro e início de fevereiro especificamente para coletar dados de tamanho populacional desta espécie”, revela.

O pesquisador destaca que esses macacos possuem uma série de adaptações que permitem perfurar frutos de casca dura para consumir as sementes.

“Também os uakaris nesta região parecem estar associados às florestas que alagam durante o período de chuva. Neste período, há mais frutos disponíveis na floresta e os uakaris andam em grande grupos, às vezes, com mais de 50 indivíduos. Já no período da seca é o oposto. Eles se dividem em grupos pequenos (3 a 6 indivíduos, aproximadamente), e isso está associado à menor oferta de frutos nesta estação.”

Origem do nome e características

Segundo o pesquisador, amuna é um termo da língua katukina, que significa “macaco uakari”. “Os índios Kanamaris originalmente se dividiam em grupos e cada grupo recebia o nome de um animal. Uma forma de identificação. Um destes grupos é o ‘amuna dyapas’. Na região do Rio Tarauacá, temos a Terra Indígena Kanamaris do Rio Juruá. Então, usar o termo “amuna” para nomear essa espécie nova é uma importante forma de reconhecimento deste povo e do que eles representam para nossa cultura.”

Questionado sobre o que difere essa espécies das outras, o pesquisador explica que são alguns detalhes. Atualmente, o único estudo em andamento sobre a espécie é este que constatou sua ocorrência endêmica na Amazônia.

“O Cacajao amuna é uma espécie que possui a coloração toda branca, uniforme. Há em outras áreas uakaris de coloração alaranjada, mais avermelhados e na região do médio Solimões há a espécie Cacajao calvus que possui uma coloração bege ou branca, mas esta espécie possui a região interna dos membros com um tom alaranjado, assim como a pelagem da região peitoral. Ambas são geneticamente distintas e estão separadas por cerca de 700 km de distância”, destaca o pesquisador.

O que ainda não se sabe sobre essa nova espécie é sobre sua ecologia e comportamento ou sobre a situação de sua população.

Preservação

O que mais ameaça essa espécie é o desmatamento, já que os primatas brasileiros vivem em árvores. Então, esse dano ambiental acaba impactando a sobrevivência dele.

“É importante que o desmatamento seja contido principalmente na região do entorno da BR-364, que conecta Rio Branco a Cruzeiro do Sul. Esta rodovia passa por cidades que estão em crescimento no Acre e onde temos maior expansão do desmatamento. Portanto, conter o desmatamento na Amazônia é a única forma de manter as populações de primatas saudáveis a longo prazo”, enfatiza.

Como tudo ainda é muito novo com relação à espécie, Felipe Ennes diz que é estudado ainda a sensibilidade do macaco às mudanças climáticas.

“O principal risco é o desmatamento, mas temos também um estudo sendo realizado em que verificamos que a espécie Cacajao amuna é sensível às mudanças climáticas. Estes dois fatores quando somados podem gerar uma perda de habitat muito grande em cenários futuros, especialmente quando há ausência de políticas socioambientais e ausência do combate às atividades que geram desmatamento”, pontua.

Desmatamento é um dos fatores que mais ameaçam a nova espécie, destaca o pesquisador — Foto:  Marcelo Santana

Desmatamento é um dos fatores que mais ameaçam a nova espécie, destaca o pesquisador — Foto: Marcelo Santana

O estudo

A publicação desse estudo ocorreu após mais de 10 anos de pesquisa na Amazônia, que contou com diferentes pesquisadores e instituições, que inclui o Instituto Mamirauá; Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e universidades do Brasil e do exterior.

“Inclui dados de distribuição geográfica coletados em diferentes expedições, análises moleculares usando genômica, e um trabalho detalhado em coleções científicas no Brasil e no exterior. Exemplos aqui incluem as coleções do Museu Paraense Emílio Goeldi, Instituto Mamirauá, Museu de Zoologia da USP e Museu Nacional do Rio de Janeiro. Então, ressalto aqui a importância destas coleções para o conhecimento de nossa biodiversidade e para sua conservação”, pontua.

Importância da descoberta

Estudos como esse são importantes para aumentar o conhecimento sobre a Amazônia e chamar atenção da sociedade quanto a diversidade da região e do país. Inclusive, em um período em que as áreas ambientais estão constantemente ameaçadas.

“Apenas conhecendo o que temos na Amazônia poderemos dar mais valor à nossa floresta e entender que teremos muito mais benefícios com a floresta de pé, e não com imensas áreas de florestas dando lugar a monoculturas ou pastagem, por exemplo. Então, descobertas como essa nos mostram que estamos perdendo uma biodiversidade que sequer conhecemos”, destaca.

Como estudioso da área, o pesquisador diz ainda que vê com bastante receio e preocupação os projetos de lei propostos para a região, como o PL 6.024, que tira a proteção integral da Serra do Divisor no Vale do Juruá e altera os limites da Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex).

Além do PL 490, de 2007, que trata do marco temporal e prevê mudanças no reconhecimento da demarcação das terras e do acesso a povos isolados.

“Especificamente falando de uakaris, o Parque Nacional da Serra do Divisor é o único local no Brasil em que ocorre a espécie Cacajao ucayalii. Esta espécie tem sua distribuição principalmente no Peru, onde já é ameaçada e o único local onde foi encontrada no Brasil é no Divisor. Uma estrada atravessando o parque significa impacto direto a espécies que só ocorrem naquela região. Projetos de lei como esses têm efeito desastroso. O que está em curso aqui não é um único projeto de lei que visa modificar ou alterar algo específico. O que estamos vendo é um desmonte das instituições como Ibama, ICMBio, a própria FUNAI. Paralelo a isso, são vários projetos de lei que tramitam na câmara dos deputados e que juntos terão um efeito devastador não só do ponto de vista ambiental mas em grande parte para as condições sociais da população das regiões afetadas. É o famoso ‘passar a boiada’, o que está acontecendo neste momento”, finaliza.