Cruzeiro do Sul, Acre 10 de março de 2026 12:38

Neta de Chico Mendes tatua casa de líder ambientalista assassinado há 33 anos: ‘símbolo de resistência’

Neta do líder ambientalista Chico Mendes, conhecido internacionalmente por lutar pela preservação da floresta, Angélica Mendes, de 32 anos, resolveu eternizar a casa do avô na pele tatuando o monumento histórico no braço. O líder foi morto na noite de 22 de dezembro de 1988. Na noite do crime, o seringueiro decidiu tomar banho nos fundos de casa, quando foi morto a tiros. Ele já sofria ameaças na época.

O fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho Darci Alves Ferreira foram condenados em 1990, a 19 anos de detenção. Eles fugiram da prisão em 1993, e foram recapturados em 1996. Em 1999, Darly saiu do presídio para cumprir o restante da pena em prisão domiciliar, alegando problemas de saúde. Darci, no mesmo ano, ganhou o direito de cumprir o restante da pena em regime semi-aberto.

Angélica nasceu logo depois de o avô ser assassinado e, mesmo não tendo tido convivência com ele, à medida que foi crescendo, a questão ambiental se tornou uma luta dela também. Ela é filha de Ângela Mendes, presidente do Comitê Chico Mendes e filha do ex-seringueiro.

“Fui fazendo a imagem do meu avô com os depoimentos de companheiros, familiares, pessoas mais próximas a ele. Para ter a visão dele mesmo, não só do líder internacional. Tenho esse apego emocional e, crescendo, me formei em biologia, mestrado e agora sou doutora em ecologia e, neste contexto, voltei para o Acre. Terminando o doutorado voltei para o Acre para fazer minha parte neste legado”, conta.

Para se formar, ela passou 12 anos fora do estado acreano. Mesmo distante, Angélica conta que sempre foi voluntária do Comitê Chico Mendes, que ainda hoje defende o legado do líder seringueiro.

‘Resistência’

A bióloga conta que certa vez conheceu uma pessoa que tinha tatuado a casa do avô no braço e achou a ideia interessante, ainda mais sendo o avô dela uma das pessoas mais importantes e conhecidas quando o assunto é preservação da floresta.

Para ela, eternizar essa casa é uma forma de registrar a história da família e também um portal do qual pode se conectar com o avô que não conheceu, mas que sempre esteve presente em todas as escolhas que tomou na vida, inclusive, na sua profissão.

“Essa casa é uma resistência também. Além de ter sido um local histórico, é uma casa que está em Xapuri e que vem gente do mundo inteiro ver ela. Para a história do Acre, tem uma importância muito grande, atrai o turismo para o estado. E aí é essa questão da resistência da casa, que está lá firme e carrega toda essa história. A gente como acreano tem que valorizar muito a nossa história e, embora existam muitos ataques contra o meu avô, acho que tenho que levantar essa bandeira, tenho que ter orgulho”, disse

Foto: Arquivo pessoal

‘Lutar pela vida de quem defende a floresta’

Ativista do Comitê Chico Mendes, a bióloga acompanhou aflita o caso do indigenista Bruno e jornalista inglês Dom Phillips, que foram mortos na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. A reserva é palco de conflitos relacionados ao tráfico de drogas, roubo de madeira e garimpo ilegal.

Para Angélica, é alarmante que, 33 anos depois da morte do avô, ainda sejam comuns casos como esse. Ela relembrou que o Brasil é um dos países que mais matam ativistas ambientais.

“Nos sentimos devastados com essa notícia, porque, 33 anos depois, a gente ainda tem que lutar pela vida de quem defende a floresta. Esses defensores não deveriam estar com a vida em risco, mas a gente tem um governo que não protege os povos indígenas, que não protege os povos tradicionais e que ainda pune quem faz seu trabalho. Bruno e Dom foram duas pessoas que faziam mais do que o seu trabalho, porque quando a gente trabalha na área ambiental, acaba dando mais de si, porque é a defesa de uma causa, arriscando a vida para proteger a dos demais. Já sabiam que estavam ameaçados, assim como meu avô já sabia que estava ameaçado, mas nem por um minuto pensaram e voltaram atrás, continuam fazendo o que achavam que eram certo”, destaca.

Para ela, o cenário político acaba fazendo com que muitos conflitos voltem a ter força em áreas preservadas, como é o caso de onde os dois desapareceram.

“A gente está voltando aí com conflitos fortíssimos em relação ao garimpo na Amazônia, a grilagem de terra, a situação está aí e ninguém está fazendo nada. Eu, como uma pessoa que perdeu um ente dessa mesma forma, me sinto muito abalada com a situação toda”, lamenta.