Prédio público mais antigo do Acre, construído no início do século XX, passa por revitalização completa e ganha novos espaços de memória para preservar a história do Judiciário e da sociedade do Vale do Juruá
Há prédios que simplesmente ocupam um espaço na cidade. E há aqueles que parecem guardar, em suas paredes, as marcas do tempo. Em Cruzeiro do Sul, um desses lugares acaba de ganhar um novo capítulo. Ao final da tarde desta quarta-feira, 1º de outubro, o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) entregou oficialmente a revitalização completa do Centro Cultural do Juruá, um dos mais importantes patrimônios históricos do Acre e considerado o prédio público mais antigo do estado a preservar suas características arquitetônicas originais.

Mais do que uma obra de recuperação estrutural, a entrega representa a preservação de um lugar que atravessou diferentes momentos da história acreana. Por suas salas passaram autoridades, magistrados, servidores, promotores, advogados e cidadãos. Ali funcionaram a primeira Prefeitura de Cruzeiro do Sul, órgãos do Judiciário, cartórios e o Tribunal do Júri. Hoje, o espaço permanece aberto à população como lugar de memória, cultura e conhecimento.
“Estamos entregando um prédio que tem mais de 100 anos de existência e que conta a própria história do Acre”, destacou o presidente do TJAC, desembargador Laudivon Nogueira. Para ele, a revitalização representa também um compromisso com as próximas gerações.
“É um momento muito importante, um momento de celebrar. Recebemos esse patrimônio e estamos permitindo que as próximas gerações também possam recebê-lo. É um espaço de memória, um espaço para mostrar nossos registros, e a história do povo acreano que também está aqui dentro”, afirmou.
Laudivon ressaltou ainda que a preservação do Centro Cultural aproxima o Poder Judiciário da sociedade. “É uma oportunidade de o cidadão conhecer o Judiciário, estar próximo. Nós estamos dizendo ao cidadão que ele pode se aproximar, estar próximo de todos vocês”, completou.

Um prédio que viu o Acre acontecer
A história do imóvel começou em 1908, quando a Comissão de Obras Federais, chefiada pelo intendente Bueno de Andrada, iniciou sua construção. A obra foi concluída em 1909, dando ao prédio o formato que, preservado ao longo das décadas, ainda pode ser reconhecido atualmente.
O primeiro destino do imóvel foi abrigar a Intendência do Alto Juruá, a primeira Prefeitura de Cruzeiro do Sul. Em 1910, o prédio foi repassado ao Poder Judiciário, passando a abrigar cartórios e o Tribunal do Júri da comarca durante aproximadamente nove décadas. O espaço também recebeu um Tribunal de Apelação do Alto Juruá, tornando-se parte da própria formação institucional da Justiça na região.
Em 13 de junho de 2001, durante as comemorações pela autonomia do Estado do Acre e pelos 38 anos de criação do TJAC, o antigo fórum ganhou uma nova missão: tornou-se o Centro Cultural do Juruá, transformado em um repositório da história da Justiça e do município. Desde então, o local recebe turistas, estudantes, moradores e autoridades interessados em conhecer um pouco mais da história do Acre e do Poder Judiciário.




Preservar sem apagar as marcas
A revitalização foi pensada justamente para recuperar o prédio sem descaracterizá-lo. Foram investidos R$ 831.759,85, exclusivamente com recursos do Poder Judiciário do Acre. O telhado recebeu novo material, mais resistente e adequado para proporcionar maior conforto térmico, mantendo as características originais da construção. O piso foi recuperado com madeira, preservando o estilo tradicional do imóvel.
Os espaços de exposição também foram reorganizados. O acervo ganhou nova disposição e conteúdos visuais foram instalados para apresentar ao visitante acontecimentos, personagens e momentos que fazem parte da trajetória do Judiciário no Juruá. Documentos, fotografias, objetos e outros registros históricos passaram a ocupar o espaço de forma mais integrada, fortalecendo a função do Centro Cultural como acervo permanente da memória do Judiciário acreano e da própria sociedade.
Para a coordenadora da Memória e Gestão Documental do TJAC, Ana Cunha, o trabalho representa algo maior do que recuperar paredes, pisos e telhados. “Esse é o nosso primeiro Centro Cultural. Manter essa estrutura de uma forma original é motivo de orgulho para nós, porque estamos preservando uma história que não é somente do Judiciário, mas da sociedade acreana”, destacou.




“A memória é da sociedade”
Entre os presentes à cerimônia estava o desembargador emérito Arquilau de Castro Melo, que destacou a dimensão histórica do imóvel e o papel do Judiciário na preservação da memória acreana. Para ele, o prédio não pertence apenas ao Judiciário ou a Cruzeiro do Sul. É um patrimônio de todo o Estado. Arquilau também chamou atenção para uma característica particular dos espaços de memória mantidos pelo Judiciário: eles permitem uma aproximação diferente entre a instituição e a população.
“Quando você julga um processo, você divide. Nos espaços culturais, é diferente. Aqui ninguém vem obrigado. O sujeito vem por prazer, para se deleitar e admirar esse espaço”, observou.
O desembargador emérito lembrou ainda que os documentos preservados pelo Judiciário ajudam a contar histórias que ultrapassam os limites dos processos. São registros sobre pessoas, costumes, relações sociais, conflitos, viagens e transformações vividas pela população. “A memória é da sociedade, porque, se você for abrir processos, o guardião da história do Acre e do Brasil é o Judiciário. Os processos contam a história de uma época”, afirmou.

Um resgate para todo o Vale do Juruá
Corregedor-Geral da Justiça, o desembargador Nonato Maia também destacou a importância da revitalização. Com atuação na região no final da década de 1990 e início dos anos 2000, ele lembrou que o prédio faz parte de sua própria trajetória profissional e da história da Justiça no Juruá.
“É uma alegria poder ver esse prédio restaurado. Aqui eu tive atuação nos anos de 1999 e 2000 e, como sou da região do Juruá, fui também juiz titular da comarca de Mâncio Lima”, recordou. Para Nonato Maia, a recuperação do imóvel representa um verdadeiro resgate histórico. “A revitalização desse prédio é um resgate e uma entrega histórica para toda a população do Vale do Juruá, porque faz parte da história do Judiciário e faz parte da história do Estado do Acre”, afirmou.
A desembargadora Waldirene Cordeiro, que também participou da cerimônia e já havia contribuído para uma revitalização anterior do espaço durante sua gestão como presidente do Tribunal, ressaltou que a conservação do patrimônio precisa acompanhar a passagem do tempo.
“Prédios precisam ser reparados e, assim como a nossa história também tem seu curso, os prédios precisam ser revitalizados para seguir. Não só a entrega da nossa atividade-fim, que é exercer os julgamentos, mas também essa área social, essa área cultural. É isso que representa esse prédio, não só para Cruzeiro do Sul, mas para todo o povo do Acre”, declarou.

Homenagem e um rito cultural
A cerimônia também foi marcada pela entrega da Ordem do Mérito Judiciário, no grau de Grande Oficial, ao sacerdote católico Padre Heriberto Douteil, em reconhecimento à sua contribuição para a cultura e a arte no Vale do Juruá. Em razão de seu estado de saúde, a homenagem foi recebida em seu nome pelo também sacerdote católico Padre Francisco Mello. O reconhecimento integrou uma tarde dedicada justamente àquilo que o Centro Cultural representa: a valorização das pessoas, das instituições e das histórias que ajudaram a construir o Acre.
A noite de reinauguração contou com uma apresentação especial do grupo artístico Swing da Mata, coordenador por Aldemir Maciel. Há 23 anos a iniciativa leva ritmos regionais para Cruzeiro do Sul e por onde já passaram mais de 400 integrantes entre músicos e dançarinos. A programação cultural teve ainda a participação da banda musical do Comando de Fronteira Juruá/61º Batalhão de Infantaria de Selva (61º BIS).
Ao reabrir suas portas revitalizado, o Centro Cultural do Juruá não começa uma nova história. Ele continua a antiga. A madeira renovada, o telhado recuperado, as exposições reorganizadas e os documentos preservados não apagam as marcas de mais de um século. Ao contrário, ajudam a mantê-las visíveis.






