Em agosto de 2026, durante a prestigiada Pebble Beach Automotive Week, na Califórnia, a fabricante de Sant’Agata Bolognese celebra o aniversário de 60 anos de seu modelo mais emblemático, a Lamborghini Miura, reunindo mais de 40 exemplares no lendário gramado do fairway n.º 3 do Pebble Beach Golf Links.
O evento marca o ápice de um 2026 inteiro de homenagens globais ao modelo que, ao estrear no Salão de Genebra em 10 de março de 1966, deu origem a um novo conceito de automóvel: o supercarro.
O projeto
No início dos anos 1960, a Automobili Lamborghini era uma fabricante muito jovem e nichada, focada em luxuosos e elegantes gran turismos idealizados por seu fundador, Ferruccio Lamborghini. No entanto, nos bastidores da fábrica, uma equipe de engenheiros com média de idade abaixo dos 30 anos alimentava ambições vindas das pistas de corrida.
Sob a liderança de Gian Paolo Dallara, Paolo Stanzani e do piloto de testes neozelandês Bob Wallace, o trio começou a desenvolver, nas horas vagas e após o expediente, o projeto de um carro esportivo sem concessões. A inspiração vinha diretamente dos protótipos de competição de Le Mans, utilizando a arquitetura de motor central-traseiro.
Em 3 de novembro de 1965, durante o Salão do Automóvel de Turim, a Lamborghini chocou o público ao expor apenas o chassi nu do veículo, batizado internamente de Projeto L105 (ou 400 TP).
Chassi ultraleve: fabricado em chapa de aço perfurada de apenas 0,8 mm de espessura, o chassi pesava apenas 120 kg.
Motor central e transversal: o motor V12 de 3.9 litros estava montado na posição transversal, logo atrás do cockpit do motorista, algo nunca antes visto em carros de produção.
“Sapato perfeito”: reza a lenda que o icônico piloto Nuccio Bertone aproximou-se do estande ao fim do evento e disse a Ferruccio Lamborghini que sua casa de design desenharia “o sapato perfeito para aquele pé maravilhoso”. A frase se tornou um jargão comum entre os colecionadores e entusiastas de carros clássicos.
O choque estético e o nascimento do nome
Apenas quatro meses após a apresentação do chassi, a carroceria desenhada pelo jovem Marcello Gandini (então chefe de design da Carrozzeria Bertone) estava pronta. Com apenas 1,05 metro de altura, proporções dramáticas e agressivas, a silhueta parecia a de um predador prestes a dar o bote. Entre os principais elementos que chocaram o público nos anos 1960 estão:
Cílios nos faróis: os faróis retráteis, que usavam grelhas pretas integradas à carroceria (apelidadas de “cílios”), conferiam um olhar único à frente do carro.
Persianas traseiras: a tampa do motor utilizava venezianas em alumínio preto para dissipar o calor do V12, criando uma tendência estética aplicada até hoje.
Personalização: rompendo com os tons sóbrios da época, e afrontando a monocromática rival Ferrari, o Miura foi oferecido em uma paleta vibrante que incluía Arancio Miura (laranja), Giallo Fly (amarelo), Verde Rio e Azzurro México (azul).
Foi também com este modelo que Ferruccio inaugurou a tradição de batizar os carros da marca com referências às touradas espanholas, as quais ele próprio acompanhava fervorosamente. O nome Miura é uma homenagem à lendária linhagem de touros de lide criada pelo espanhol Don Eduardo Miura Fernández, um nome que simboliza bravura, força e presença para a Lamborghini.
V12: O protagonista
Na mecânica, o Miura ostentava a evolução do motor V12 de 3.929 cc, projetado originalmente por Giotto Bizzarrini e adaptado para as ruas por Paolo Stanzani. Equipado com quatro carburadores duplos Weber 40, o motor girava no sentido anti-horário e entregava um ronco bastante característico.
Nas primeiras versões (P400 e P400 S), o motor, a transmissão de 5 marchas e o diferencial compartilhavam o mesmo cárter de lubrificação — uma solução compacta, porém desafiadora, que mais tarde foi separada na versão SV (Super Veloce).
Sem assistência de direção, controles eletrônicos de tração ou estabilidade e com uma distribuição de peso focada no eixo traseiro, o Miura exigia um grau mais avançado de pilotagem, foco absoluto e braço firme do motorista.
As versões de produção do Miura
Entre 1966 e 1973, a Miura evoluiu em três versões principais. A história começou com o P400, produzido de 1966 a 1969. Modelo original e purista da linhagem, ele trazia o motor V12 ajustado para 350 cv a 7.000 rpm e atingia velocidade máxima de 280 km/h, destacando-se visualmente pelos icônicos “cílios” ao redor dos faróis e por um interior mais austero.
Em seguida veio o P400 S, fabricado entre 1968 e 1971. Esta evolução elevou a potência para 370 cv a 7.500 rpm, mantendo a velocidade final de 280 km/h, mas focando no ganho de conforto ao introduzir vidros elétricos, ar-condicionado opcional e ajustes no chassi com freios a disco ventilados.
A trajetória encerrou-se com o P400 SV, oferecido de 1971 a 1973. Sendo a versão definitiva e mais potente da série, alcançava 385 cv a 7.850 rpm e superava os 290 km/h. O SV trazia melhorias mecânicas cruciais, como a separação dos sistemas de lubrificação do motor e do câmbio, além de uma traseira mais larga para acomodar pneus maiores e um visual dianteiro renovado, que dispensava os antigos “cílios” dos faróis.
Modelos especiais e protótipos
Miura Roadster (1968): exemplar único (one-off) sem teto, criado pela Bertone na cor Sky Blue (azul) com interior de couro branco, exibido no Salão de Bruxelas.
Fenômeno Roadster (2026): Exclusivo modelo few-off de teto aberto com motor V12, revelado pela Lamborghini durante as festividades dos 60 anos em Imola, inspirado diretamente no Roadster de 1968.
Múltiplas celebrações do sexagenário em 2026
As comemorações dos 60 anos do supercarro mobilizaram o departamento de restauração Lamborghini Polo Storico. Entre 6 e 10 de maio de 2026, a marca promoveu o Polo Storico Giro, uma expedição de mais de 500 quilômetros que reuniu 20 exemplares da Miura, cruzando as regiões do Piemonte, Ligúria, Toscana e Emília-Romana, finalizando com um desfile no Autódromo de Imola.
O ápice da homenagem, contudo, reserva-se para o dia 16 de agosto de 2026 em Pebble Beach. Stephan Winkelmann, presidente e CEO da Automobili Lamborghini, ressalta a magnitude do momento:
“Poucos automóveis mudaram o curso da história da forma como o Miura fez. Ele não era apenas um carro bonito ou um marco de engenharia; ele mudou a forma como o mundo imaginava desempenho, design e desejo. Reunir a maior coleção de Miuras já montada é um tributo extraordinário aos visionários que o criaram.”
A Lamborghini Miura estabeleceu a fórmula geneticamente transmitida a ícones subsequentes como Countach, Diablo, Murciélago, Aventador e Revuelto. Seis décadas depois, ele permanece como a definição original, o marco zero, do que é um supercarro.