Cruzeiro do Sul, Acre 6 de março de 2026 01:59

Coluna do Ton

Por Eliton Muniz

Coluna do Ton- O ESTADO, OS PENDURICALHOS

E A REPÚBLICA DO BALCÃO

O Brasil acordou em clima de festa.

Mas enquanto o povo escolhe fantasia,
tem servidor público desfilando acima do teto.

Confete de penduricalho.
Samba-enredo de “verba indenizatória”.
E o teto constitucional… virou sugestão.

Entra em cena Luiz Inácio Lula da Silva
em dobradinha com Flávio Dino.

Apito na boca.
Discurso moral pronto.
Alvo escolhido: supersalários.

O Congresso se irrita.

Não pelo povo.
Pelo corte.

O projeto aprovado era criativo.

Auxílio aqui.
Gratificação ali.
Compensação acolá.

Tudo dentro da “legalidade possível”.
Tudo empurrando o teto para o canto.

Vem o veto.

Mas não é veto simples.
É veto com constrangimento embutido.

Quem votar contra
não vai parecer técnico.
Vai parecer defensor de privilégio.

E político aceita muita coisa.
Mas não aceita virar meme moral.

Aqui está o ponto.

Não se ganha no argumento.
Se ganha no custo de imagem.

Não é debate.
É enquadramento.

O veto vira símbolo.
O símbolo vira pressão.
E reagir vira risco.

Não porque o veto seja perfeito.
Mas porque discordar ficou caro.

O Congresso não está bravo só pelo dinheiro.

Está bravo porque perdeu o controle do jogo.

Perdeu a narrativa.
Perdeu o timing.
E foi empurrado para o canto com o holofote ligado.

Isso não constrói governabilidade.
Constrói ressentimento.

E ressentimento institucional não desaparece.
Ele se acumula.

E então chegamos ao ponto mais sensível.

O Tribunal de Contas da União.

O órgão que deveria fiscalizar
passou a experimentar o papel de mediador.

Mesa de consenso.
Conversa institucional.
Arranjo elegante.

Mas existe uma regra básica de República:

Quem fiscaliza não negocia.
Quem negocia não julga.

Quando o árbitro larga o apito
e senta na mesa do acordo,
a técnica vira figurante.

E o poder muda de lugar.

O que aparece aqui não é exceção.

É padrão.

Emenda vira moeda.
Cargo vira ponte.
Teto vira interpretação.
Controle vira conversa.

Balcão no Legislativo.
Balcão no Executivo.
Balcão no TCU.

E o cheiro de balcão já ronda o Judiciário.

O Brasil não virou uma República institucional.

Virou uma República de balcão.

Onde tudo se negocia.
Tudo se ajusta.
E quase nada se resolve pelo método.

Cortar penduricalho rende aplauso.
Constranger o Congresso rende manchete.
Vestir toga moral rende capital político.

Mas governar assim cobra juros.

Porque quando o método é substituído pelo constrangimento,
o Estado deixa de ser estrutura
e vira espetáculo.

E espetáculo não sustenta República.

Quando o fiscal negocia,
quando o teto vira interpretação,
quando o veto vira arma simbólica,
o que se perde não é dinheiro.

É previsibilidade.

E sem previsibilidade,
instituição vira disputa permanente.

O Brasil não precisa de palco moral.
Precisa de regra clara.

Porque toda vez que a política escolhe vencer pelo constrangimento
em vez de convencer pelo método,
ela enfraquece o próprio sistema que diz defender.

No fim, não é sobre penduricalho.

É sobre erosão.

E erosão institucional não faz barulho no começo.

Só aparece quando a estrutura já está comprometida.

E aí não há veto que resolva.

Por Eliton Lobato Muniz
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Colunista do Cidade AC News — https://cidadeacnews.com.br/