Após um período difícil, de uma batalha judicial para garantir que todo o tratamento do filho fosse coberto pelo plano de saúde, o advogado Alberto Bardawil Neto celebra a evolução do pequeno Alberto Assad Bardawil, de 10 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e prepara um livro para ajudar e orientar outras famílias do Acre sobre os direitos que possuem e orientações diversas.
O transtorno não tem cura e em 2012 a legislação brasileira passou a assegurar às pessoas diagnosticadas com TEA os mesmos direitos garantidos aos deficientes físicos e mentais. Mas, a luta travada por Bardawil, em 2106, foi para que o plano de saúde cobrisse o tratamento do filho, o que foi negado inicialmente após um pedido formal. A cobertura só ocorreu depois de uma liminar na justiça e posterior acordo firmado já em 2018.
O diagnóstico de Alberto foi feito quando ele tinha entre dois e três anos, quando os pais começaram a perceber mudanças no comportamento dele, que deixou de falar e começou a se isolar.
“Meu filho nasceu em dezembro de 2011 e até dezembro de 2012 era uma criança perfeitamente normal, inclusive falava e andava. Quando foi no começo de 2013, após completar um ano, começou a apresentar comportamentos diferentes, mas ficou só naquilo. Alguns meses depois, coloquei para dormir, dormia só no quarto dele, e quando foi um dia, acordou e achei estranho porque não chamou, então fui até quarto e ele estava sentado, olhando para a janela e chamei várias vezes e não atendeu, foi um comportamento realmente estranho, achei que tinha caído do berço que tivesse acontecido alguma coisa grave, mas olhei às câmeras e não tinha acontecido nada. E foi se isolando, parou de falar e não conseguia médico aqui para resolver a situação dele, levei à pediatra e ela disse que era normal”, contou.
Sem se conformar com o que a médica tinha dito e sem ter especialista em Rio Branco na época, os pais foram para fora Fortaleza, onde uma tia conseguiu consulta com uma especialista de lá, onde depois de fazer uma série de exames conseguiu o diagnóstico.
“Na época, ainda não tinha especialista em Rio Branco e o Alberto teve que ficar lá [em Fortaleza] com a mãe alguns meses e foi feito o diagnóstico, depois de passar por quatro especialistas que, na época, diagnosticaram que ele tinha autismo do moderado indo para o severo. A gente ficou sem alternativa porque não tinha como a mãe dele morar aqui e fazer o tratamento do Alberto em Rio Branco e ela ficou em Fortaleza um bom tempo”, relembra.
Depois desse período, Bardawil disse que soube que uma médica do estado tinha se especializado e, após a médica de Fortaleza conversar com essa neuro, mãe e filho voltaram para Rio Branco. Foi quando começou a jornada para garantir o atendimento do menino feito hoje pela Unimed.
“O Alberto tem plano de saúde desde o dia que nasceu e, em razão disso, fui até a Unimed e disse que meu filho foi diagnosticado com autismo, estava com 3 anos e ia transferir o tratamento dele para Rio Branco e tinha a lista de profissionais que precisávamos para o tratamento”, relembrou.
O advogado disse que foi feito um requerimento por escrito, que foi analisado e respondido com a negativa.
“Fui até lá e eles disseram para que eu pagasse a médica e eles iriam me ressarcir. E disse que não queria o ressarcimento até porque iam me pagar menos de 20% do que estava gastando. Vocês são um plano de saúde e tem obrigação de pagar. Durante um ano foi feito o que se comprometeram, mas quando começou o segundo ano, não ressarciram mais nada. O que me obrigou a entrar com a ação que não tinha como objetivo pedir o dinheiro deles, o que pedi foi que a Unimed a partir dali fosse obrigada a pagar a médica porque eles alegavam que a doutora Bruna não fazia parte do quadro da Unimed”, contou.

Alberto Assad Bardawil conta com tratamento após acordo na justiça — Foto: Arquivo pessoal
‘Crueldade’
O lamento do pai em toda essa luta é que o quadro do filho teria piorado, caso não tivesse lutado pelo tratamento dele com todos os especialistas que ele precisa.
“O cruel disso tudo é que se não fosse uma pessoa como eu, que sou advogado, que tenho um certo conhecimento, meu filho tinha piorado muito sem o tratamento. Quando eles negaram, me passaram uma carta horrorosa chegando a dizer que a médica não era habilitada. Respondi com uma carta mais incisiva dando 24 horas para que eles respondessem e me negaram, foi quando entrei na justiça”, disse.
Depois disso, ele conseguiu uma liminar na justiça que obrigou o plano de saúde a ofertar todo o tratamento de Alberto, incluído a neurologista, a especialista que não tinha no quadro, bem como com o tratamento complementar, com equipe multidisciplinar, prescrito pela médica – psicólogo, fonoaudiólogo, terapia ocupacional, dentre outros profissionais.
“Eles começaram a realizar porque tinha a liminar. Recorreram, mas perderam. Fizemos o acordo, para eles ofertarem o tratamento e multa de R$ 2 mil em caso de descumprimento. E eles têm cumprido. Tudo que a médica pede, eles fazem, mas o pior é a crueldade. Quando terminei o processo do meu filho, tive um pneumonia grave devido ao desgaste emocional. Mas, consegui transformar o tratamento do Alberto no melhor tratamento que tem em Rio Branco, é um tratamento caro, e a Unimed é muito cruel porque ela não pode limitar as terapias”, ressaltou.

Unimed disse que não pode oferecer um serviço que não está dentro do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e por isso que há judicializações — Foto: Reprodução/Google Street View
O que diz a Unimed
Em nota, a A Unimed disse que não pode oferecer um serviço que não está dentro do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) , por isso, que há judicializações. Apesar de na época não ofertar o tratamento, apenas reafirmou que está sendo garantido o tratamento de Alberto.
“A Unimed Rio Branco é a maior operadora de saúde no Acre, sendo uma referência de saúde suplementar no estado. Além de ser responsável pela maior cobertura de saúde privada, a Unimed Rio Branco avançou na ampliação da rede credenciada desde 2018, quando, na época, a falta de profissionais especializados era uma realidade na região. Ressaltamos que o paciente, filho de Alberto Neto, tem todos os tratamentos e acompanhamentos garantidos pela Unimed Rio Branco previstos em acordo celebrado entre ambas as partes”, disse.
Ainda destacou os atendimentos que realiza atualmente e que deve inaugurar uma unidade especializada para estes atendimentos.
“Hoje, em Rio Branco, a Unimed atende mais de 500 pacientes com TEA, seguindo o rol de procedimentos da ANS. Em breve, a Unimed Rio Branco irá inaugurar a primeira unidade própria especializada e exclusiva para esses serviços, o Instituto Unimed Terapias, com especialidades e acompanhamentos multiprofissionais integrados.”
‘Foi tudo uma luta’
Bardawil ressalta que a luta para assegurar o tratamento é garantir a independência de Alberto.
“Entrei com essa ação para que meu filho, quando se tornar adulto daqui uns anos, seja um adulto que não precise do governo para nada, seja independente. A parte financeira estou trabalhando para que seja financeiramente independente, mas quero que seja um ser humano independente que vá ao banheiro sozinho, como vai, tomar o banho sozinho, como faz, e sem o tratamento isso não existe. Lembrando que ele saiu do quadro moderado para o leve. Ele fala, escreve, lê, fala inglês perfeitamente e entende, começou a entender um pouco de árabe, porque minha família é libanesa e gosto de falar algumas coisas com ele e gosta”, comemora.
Bardawil disse que Alberto é sociável, abraça, conversa, não tem problema com toques ou som alto, mas gosta da rotina. Ele diz também que o espectro também fez com que enfrentasse dificuldades para ter o professor especializado para ele na sala de aula e também precisou acionar a justiça para garantir esse direito.
“Foi tudo uma luta. Foi o dia mais feliz da minha vida conseguir a liminar na justiça porque foi muito sofrido, não queria que meu filho tivesse passado por isso. Hoje faz terapia em casa e tem tudo que precisa. O número de autistas está só crescendo e se a gente não torná-los independentes, como vai estar a sociedade daqui 30 anos. Então, a gente tem que ajudar, é um problema de todo mundo. O autista é tão capaz que você não tem ideia”, comenta.
Livro para ajudar outras famílias
A jornada da família Bardawil, que não foi fácil, vai se tornar um livro para ajudar outras pessoas que precisam de algum atendimento, esclarecimentos ou orientações em casos de TEA.
Depois da vivência e acumular todas estas experiências, ele decidiu, há pelo menos um mês, escrever uma cartilha, mas acabou mudando o projeto original e vai escrever um livro para ajudar outros familiares de autistas a como buscar por seus direitos.
Entre os temas abordados estão: o que é o autista; qual o direito na prática; como o colégio público tem que atender meu filho; como pedir a isenção do ICMS para comprar um veículo com desconto; tratamento com plano de saúde; na unidade de saúde pública, como conseguir medicamento, entre outros.
“Estou escrevendo ainda de maneira simples, vai ter um capítulo com modelo de requerimento, e vai ter impresso e on-line gratuito. E fico responsável por ir atualizando conforme mudar a legislação. Quero passar isso para as pessoas de forma gratuita porque é um absurdo, pessoas me procuram para entrar com ação e não posso fazer, falo para o advogado me ligar porque não quero me envolver porque é muito difícil, sofri muito. Foi quando uma amiga minha me disse para canalizar a raiva que estava sentindo para ajudar as pessoas. E hoje, olho para o meu filho e penso que eu não poderia ter feito mais”, diz.
O advogado disse ainda que não representa casos de autistas, tanto pelo abalo emocional porque acaba se envolvendo, como também por causa da militância dele em prol da causa. Mas, afirmou que orienta quem precisa, dá modelo de petição, requerimento.
“Fui abençoado em ter na minha vida uma pessoa como meu filho que me ensinou tudo e por isso vou ajudar. Porque muitas vezes os pais estão sem saber onde recorrer ou por onde começar. Vou trabalhar ainda uns cinco ou 6 meses porque tenho que fazer a pesquisa correta”, conclui.